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Onde for leve seu coração! PDF Stampa E-mail
Scritto da Aparecida Severo da Silva   
ImageVenho de uma família numerosa de quatro irmãos e sete irmãs. Em 1969, quando tudo foi se tornando muito difícil no sertão da Paraíba, rumamos para São Paulo. Na bagagem trouxemos muita fé em Deus e muita esperança num futuro melhor. Trouxemos também a forte religiosidade nordestina que, para nós, era algo de sagrado. Nossos pais, embora sendo muito simples, nos educaram na fé, no respeito pelo outro, no amor ao trabalho. Já o papa João XXIII dizia: “Aonde quer que você vá, leve seu coração”.

Luta com o povo

O povo clamava por justiça e eu fui me engajando em sua luta por melhores condições de vida. Pela minha cabeça a dúvida de como poderia concretizar aquela vontade de ser útil aos que estavam ao meu redor.

Cheguei à conclusão que a única maneira seria me tornando religiosa missionária. Empolgada com esta descoberta, procurei a Congregação das Filhas de São José. Gostei muito de ter conhecido o seu Carisma e ter vivido momentos bonitos de serviço e doação; mas, percebi que não era daquele jeito que Deus me chamava a servi-lo no seu povo. Saí do convento e continuei minha busca. Nesse período fiz o Curso de Teologia para leigos na diocese, em Santo André, SP. Conheci um grupo de mulheres leigas consagradas. Quis aprofundar mais esse estado de vida e gostei. Parecia que respondia ao meu anseio. Depois de um período de orientação, fiz minha total consagração a Deus a serviço da Igreja. Era o ano 2000. Com a consagração, cresceu mais ainda aquela vontade de me colocar a serviço dos que mais sofrem. À minha grande aspiração da missão, veio unir-se o incentivo do meu bispo. Foi então que comecei a conhecer o Projeto Missionário Sul 1 e Norte 1 -que prepara e envia missionários: leigos, padres, religiosos e religiosas para a Igreja do Amazonas - Roraima. Fui convidada a integrar a equipe de missionários leigos que atuavam na Prelazia de Tefé, que fica na parte ocidental do Amazonas. Parti em junho de 2004. Meu coração se encheu de alegria ao avistar, no aeroporto de Tefé, o bispo dom Sérgio Eduardo Castriani, que viera pessoalmente nos receber. Senti-me plenamente acolhida na terra de missão.


O jeito de ser Igreja

Ao ouvir o bispo nos contando um pouco da história da realidade da sua diocese, sentia de estar entrando em contato com uma Igreja com uma longa caminhada pastoral; uma Igreja com muitas lutas e muitas vitórias, mas com muitos sofrimentos e cruzes, por ser aquela uma região onde, em muitos lugares, o povo é oprimido. O extermínio dos povos indígenas marca, com tristeza, a história da região. A Prelazia é formada por dez municípios e um grande número de comunidades ribeirinhas ao longo dos rios e afluentes do Solimões, Japurá, Juruá e Jutaí. Minha grande ansiedade era a de conhecer a cidade onde eu ficaria - Alvarães. A viagem foi feita de barco motorizado, que o povo chama de catraia ou voadeira. Após uma travessia de uns 20 minutos chegamos a uma comunidade simpática, chamada Nogueira. De lá, mais 20 minutos de carro e estávamos na paróquia de Alvarães. Fomos recebidos pela equipe de missionárias leigas que lá trabalham. Foi nesta comunidade que comecei a conhecer o jeito de ser Igreja daquele povo. Além da matriz, a paróquia tem mais duas comunidades na cidade e cerca de 30 no interior. É uma Igreja bem ministerial. Com a escassez de padres, os leigos atuam em todos os âmbitos da comunidade, mesmo não tendo toda aquela formação que seria necessária. As pastorais caminham com bastante força; então percebi que o meu, deveria ser um serviço de animação, de formação e de acolhida. Meu primeiro contato foi com os jovens; um grupo com grande vontade de lutar por justiça e disposto a transmitir esse entusiasmo aos outros jovens. Comecei a assessorar as pastorais já existentes, procurando somar forças com todos. Fiquei naquela paróquia apenas cinco meses.

Constante adaptação

Em seguida fui me juntar à equipe missionária da cidade de Uarini. Tratava-se de uma paróquia que estava sob a exclusiva responsabilidade dos leigos, distante de Tefé, 13 horas de barco. Lá encontrei uma realidade completamente diferente. Aliás, esta é uma característica de toda a Prelazia: uma diferença marcante entre as comunidades. Se por um lado isto pode ser um fator positivo, por outro, especialmente para nós, é um grande desafio, pois significa estar sempre em contínua adaptação. A paróquia de Uarini tem 52 comunidades espalhadas ao longo dos rios. Realizei ali a minha primeira visita missionária às comunidades ribeirinhas. Passei quase um mês morando no barco para visitar mais de 20 comunidades ao longo do Rio Solimões. Foram dias maravilhosos e cansativos. Acresce-se o fator psicológico necessário de estar sempre disposta para o encontro com a comunidade seguinte. Confesso que foi uma boa prova para o meu grande desejo de servir. Porém, era interessante: todo aquele cansaço parecia desaparecer quando se chegava a cada comunidade. As crianças vinham ao nosso encontro com flores, fazendo festa. Naqueles encontros percebia-se o quanto o povo estava desejoso de ouvir a Palavra de Deus e de receber a visita da Igreja, na pessoa dos seus missionários e missionárias. No contato direto com eles, tocava-se nos seus inúmeros problemas: falta de assistência médica, remédios, saneamento básico, escola, energia elétrica, água potável, o alcoolismo e a droga. Naquelas visitas procurávamos incentivá-los à luta por uma vida mais humana. Além disso, insistíamos muito na necessidade da preservação da natureza, principalmente dos lagos, de onde retiram o principal alimento da região, os peixes. A Prelazia incentiva e dá todo o seu apoio a uma outra luta: a defesa dos povos indígenas, de suas terras, educação, saúde, subsistência e o resgate de sua cultura. Já existem organizações nesse sentido, como o movimento das mulheres, dos pescadores e ultimamente dos catadores de resíduos sólidos. Para a comunicação, além dos barcos, a Prelazia tem uma rádio para que a voz do Pastor chegue aos mais remotos rincões. As distâncias são enormes. Há equipes missionárias que para chegar à sede em Tefé, viajam 85 horas de barco. E no retorno rio acima, são muitas horas a mais.

A escassez de missionários

As dificuldades da evangelização são muitas: o alto custo das viagens de longa distância e, sobretudo a escassez de missionários e missionárias. São poucas as pessoas que decidem abraçar esta causa ou se dispõem a dar alguns anos de sua vida em prol desses irmãos e irmãs. Só para se ter uma idéia: a Prelazia de Tefé ainda não tem um padre autóctone, isto é, filho da terra. Muitas paróquias não têm sacerdotes e isto significa que não têm a Eucaristia. Em muitas comunidades ribeirinhas e indígenas, esta presença só acontece de seis em seis meses ou a cada ano. É de admirar a consciência de pertença à Igreja que muitas pessoas têm. Homens e mulheres que, mesmo com seu pouco conhecimento, têm a coragem de tomar a frente de uma comunidade e levá-la adiante, em comunhão com o pequeno grupo de padres e missionários da região e o seu bispo. Diante desse testemunho cristão, sinto que valeu a pena ter ido e ter ficado lá três anos. Muito mais desbravadores foram os missionários que lá chegaram no início, quando tudo era ainda muito mais difícil. Foram verdadeiros heróis e heroínas chegando a dar a vida pela causa do Evangelho. Tais exemplos nunca serão esquecidos.

Um pedaço fica lá...

O último ano da minha missão foi na cidade de Tefé, no serviço de Coordenação da Pastoral. É um trabalho mais burocrático; porém, de imprescindível necessidade para que a evangelização aconteça. Quando senti que se aproximava o momento de despedir-me daquele povo que tão amorosamente me acolhera e me ensinara como ser missionária no seu meio, o meu coração ficou apertado. Saí da Prelazia durante a assembléia das CEBs, que contou com a participação de mais de 700 pessoas. Para mim, aquele foi um momento forte e preparado por Deus. Naqueles dias eu pude reencontrar quase todos os representantes das comunidades que eu tinha visitado. Diante de tanta graça, confirmei meu propósito de continuar servindo o Senhor e seu povo. Hoje, de retorno à minha casa e diocese, em Santo André, procuro partilhar com o povo, a alegria que se sente em dizer sim a Deus. Eu já me propus: vou deixar para mais tarde os meus projetos pessoais e renovar a minha entrega: “Aqui estou Senhor, envia-me”. Foi-me proposto um serviço à Igreja missionária no Centro Cultural Missionário (CCM) em Brasília, DF, onde me encontro trabalhando desde fevereiro. A missão continua.


Aparecida Severo da Silva é leiga missionária consagrada, CCM Brasília, DF.
Publicado na edição Nº02 – Março 2008 - Revista Missões.
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